Devaneios de uma razão em sua menoridade...
poligonia | 30 Diciembre, 2007 22:07
poligonia | 21 Diciembre, 2007 23:29
poligonia | 13 Diciembre, 2007 12:47
“Recompensa mal um mestre
aquele que se contenta em ser discípulo”.
(Zaratustra)
A filosofia de Friedrich Nietzsche é a expressão de um pensamento que se dobra e redobra em si mesmo, nos soando muitas vezes paradoxal; porém, esse pensamento na medida em que se constrói dentro e além de suas próprias fronteiras, se afirma enquanto força e vontade – sendo essa a tarefa do filósofo enquanto espírito livre. Entretanto, ao adentrar nesse mundo filosófico é preciso, primeiramente, entender até mesmo a filosofia como uma interpretação, isto é, um ponto de vista de um autor; portanto, não há como negar a intenção de quem escreve, de quem pensa e, devido a isso, sempre devemos nos perguntar, como o filósofo mesmo afirma: “(...) a que moral isto (ele) quer chegar?” (NIETZSCHE, 2005, p.12). Portanto, devemos nos perguntar antes de mais nada: a que moral Nietzsche quer chegar?
Primeiramente, na minha interpretação, a filosofia de Nietzsche é mais um apelo à vida do que um pensamento filosófico rigoroso – isso não é desqualificar a sua filosofia, muito pelo contrário -, pois dentro do corpo está a vida, a vontade, o querer, a moralidade, tudo extravasado pela vontade de poder1. Em Nietzsche, o pensamento é o corpo, as experiências pensadas são sentidas – não havendo precedência entre uma e outra -, e o que justifica um argumento é aquilo que se viveu, como ele mesmo diz: “Para aquilo que a gente não alcança através da vivência, a gente não tem ouvidos” (Idem, 2006, p.71). Ora, só conseguimos entender a filosofia do filósofo na medida em que vivemos ela. Todavia, viver a filosofia de alguém já é um sinal de “fraqueza”, pois se faz necessário criar a sua própria vida através do seu próprio pensamento – a sua própria afirmação enquanto espírito livre. Não só isso, o próprio filósofo já pensa em uma filosofia da singularidade, dos conceitos criados a partir da potência de artista dos “filósofos do futuro”, como ele mesmo diz: “'Meu juízo é meu juízo: dificilmente um outro tem direito a ele' – poderia dizer um tal filósofo do futuro” (Idem, 2005, p.44). Assim, podemos pensar que a filosofia de Nietzsche é a realização daquilo que Kant afirma ser o esclarecimento: ter coragem para fazer uso do seu próprio entendimento sem auxílio de outrem2; pois se em uma “filosofia do futuro” os filósofos abrem mão de formar “escolas”, eles também abrem mão de servir-se de teorias que não são suas para dar sentido às suas vidas. Na filosofia de Nietzsche, portanto, se tomarmos ele como um dos realizadores do esclarecimento, o filósofo se torna só, ele prefere ser só, pois é isso que o torna livre.
A liberdade desse filósofo do futuro, que toma as rédeas de sua própria vida, entretanto, é paga a duras penas, tendo em vista que ela se afirma no conflito de forças que é a vida. Para o Nietzsche, ao meu ver, a vida é um absurdo, ela não tem um sentido, o sentido é dado pelo sujeito vivente. Se tornar um sujeito livre, portanto, é admitir que a vida não é uma calmaria, mas uma luta de desejos atravessados pelas diversas construções de sentidos e moralidades construídas a cada instante por cada pessoa. Um filósofo do futuro, o espírito livre, seria como um aventureiro, como um guerreiro que se coloca a desbravar uma floresta perigosa, onde a calma e a tranqüilidade não existe, como diz o filósofo:
O homem que se tornou livre, e muito mais ainda o espírito que se tornou livre pisa sobre o modo de ser desprezível do bem-estar, com o qual sonham o comerciante, o cristão, a vaca, a mulher, o inglês e outros democratas. O homem livre é um guerreiro (NIETZSCHE, 2000, p.95).
A partir disso, podemos pensar que o espírito livre admite a vida sem uma ordem organizada por um ente superior, em oposição ao cristão; ou sem uma sociedade bem ordenada, onde todos viveriam tranquilamente, em oposição ao democrata. Devido a isso, podemos concluir que a liberdade não é simplesmente um fim, algo que se efetiva para que todos os seres humanos possam viver em paz e em comunhão, como era o sonho do Idealismo Alemão. Ao contrário, a liberdade é um fardo, mas que é tomado corajosamente por aqueles que admitem a vida enquanto tal -
Imaginem um ser tal como a natureza, desmedidamente pródigo, indiferente além dos limites, sem intenção ou consideração, sem misericórdia ou justiça, fecundo, estéril e incerto ao mesmo tempo (...) (Idem, 2005, p.14).
Por isso, não podemos negar que a filosofia de Nietzsche é um apelo à vida e, portanto, um apelo à sensibilidade, tão negada com o “descobrimento” da subjetividade na modernidade. Entretanto, esse apelo à vida, por incrível que pareça, é um apelo ao caos.
Talvez ainda não tenha ficado claro a definição de vida para o filósofo alemão. Ao meu ver, a noção de vida está ligada muito mais a uma concepção biológica do que uma concepção metafísica, por isso, o termo se confunde com natureza, tendo em vista que, como vimos acima, a Vontade de Poder é a constituição elementar da vida daqueles seres que se nutrem, que possui metabolismo, isto é, seres naturais - “onde encontrei vida, encontrei vontade de poder3” (Idem, 1983, p.238) Entretanto, nos parece que o filósofo, na medida que se propõe a sepultar a metafísica, vai precisar se amparar na ciência de sua época. Tentaremos, portanto, esboçar um breve diálogo do autor com a ciência, em particular com Darwin, para pensarmos a noção de vida.
Na teoria darwiniana da evolução das espécies, temos a idéia de uma luta por auto-conservação, devido ao fato de os bens a natureza serem escassos. Darwin se utilizou da teoria de Thomas Malthus para fundamentar a sua idéia de evolução das espécies,
“Estendendo a teoria de Malthus ao reino animal, Darwin sustentou que os meios de subsistência aumentavam em proporção menor que os animais, o que levava a desencadear-se entre estes o combate. Entendeu assim a luta pela existência como luta pela subsistência, vinculando-a à necessidade de auto-conservação” (MARTON, 2000, p.55).
Ora, para Nietzsche não é a carência que fundamenta a força e a luta, mas o excesso, o transbordamento, como ele mesmo escreve acerca da teoria de Darwin:
No que concerne à celebre luta pela vida, ela me parece a princípio mais afirmada do que provada. Ela acontece, mas enquanto exceção; o aspecto conjunto da vida não é a indigência e a penúria famélicas, mas muito mais a riqueza, a exuberância, mesmo o desperdício absurdo – onde há luta, luta-se por potência... (NIETZSCHE, 2000, p.75).
Com isso, podemos perceber de certa forma uma noção de vida em Nietzsche, que não é fundamentada através de uma luta por subsistência, onde os homens, devido a escassez de bens naturais, matam-se entre si para manterem-se vivos. Portanto, não é esse “manterem-se vivos” o motor da vida, da natureza, muito menos um “adaptar-se melhor”, como vemos em Darwin, mas o extravasamento da potência que quer ainda mais potência, uma busca incessante de superar o seu “ser atual” por um devir constante. Nesse caso, se fôssemos pensar a situação de pessoas em miséria por exemplo, elas não passam fome devido à falta de alimentos na natureza, mas devido ao “absurdo desperdício” de outras pessoas, pois o desejo de querer mais de outras pessoas, em grande parte, implica na impossibilidade de outros poderem ser mais, e é nesse conflito que a vida se dá; portanto, não é a carência de bens naturais que fundamenta as desigualdades, mas o querer mais das pessoas, pois “(...) até mesmo na vontade daquele que serve encontrei vontade de ser senhor” (Idem, 1983, p.238); ou seja, no fundo qualquer pessoa gostaria de ser mais do que é, por extravasamento da força, inclusive, ser o seu oposto, pelo simples fato, de estar posto que todo ser vivente quer ser mais do que é – esse é o motor da vida.
Pensar a filosofia de Nietzsche como um apelo à vida, não é simplesmente dizer que devemos viver melhor o que já vivemos, pois viver significa viver, nada além disso. O que o filósofo nos faz pensar é que não há uma justificação racional para a vida, pois a vida não é um argumento, como há tempos os diversos filósofos nos propuseram; não que não seja possível argumentar acerca da vida, no entanto, quem fala da vida fala de um determinado ponto de vista, de uma determinada perspectiva – inclusive o próprio Nietzsche. Por isso, o autor desse texto, o meu “eu”, fica em uma encruzilhada com mais de quatro caminhos, pois não há como não colocar a minha interpretação, acerca de uma interpretação, de outras várias interpretações – são as diversas vontades que se fazem pensamento no meu corpo...
O apelo à vida de Nietzsche é muito mais admitir para si a sua interpretação, as suas perspectivas, tornando cada vez mais forte aquele que pensa acerca da sua própria vida – e isso é posto na vida. Quem pensa acerca a natureza, acerca da luta, da morte, do caos, atribui sentido e se afirma enquanto sujeito vivente. Sabedoria, portanto, é tornar-se o que é (o que se quer, pois esse “é” é devir), no caso de Nietzsche, seria se alimentar bem e saber estar nos locais que fazem bem para a sua saúde, ou seja, a busca por um conhecimento do próprio corpo, por isso ele se considerava inteligente4.
O filósofo do futuro, que nada mais é do que um filósofo do corpo, do frio na espinha, do toque, do sentimento, das mais diversas afecções, do conflito com o outro – pois é isso que o torna mais forte -, do amor, da dor, do sofrimento, do engano de si, do falso – caso se opere ainda com a idéia clássica de oposições de valores - é um filósofo da vida, não coloca para si a pretensão de elaborar proposições acerca da realidade como se colocasse para além do mundo, mas proposições para si, constitui juízos que afirmam a sua vida e potência – no fundo uma proposição filosófica desse filósofo do futuro é o seu extravasamento.
Podemos até mesmo perceber que os vôos de Nietzsche no espaço científico não foram tão exitosos assim, pois, por exemplo, a contraposição da teoria darwiniana à sua vontade de poder, deveria ter se amparado mais firmemente em fundamentos científicos, isto é, a pretensão científica de Nietzsche deveria ter como fundamentação um experimento. A própria tese de uma Vontade de Poder, por mais que ele diga que constitui a vida, a natureza, ainda fica no âmbito da argumentação, da busca de um primeiro princípio, como vários filósofos fizeram – inclusive os que ele chamou de preconceituosos. Contudo, não é isso o que mais vale, devemos entender sua filosofia como uma tentativa de formar-se na vida, como ele mesmo afirma:
Quem conhece a seriedade com a qual minha filosofia principiou a batalha contra o sentimento da vingança e da revanche, até chegar à doutrina do “livre-arbítrio” - a batalha contra o cristianismo é apenas um caso isolado dentro dela -, haverá de entender por que trago à luz minha conduta pessoal, minha certeza instintiva na práxis (Idem, 2006, p.37).
Portanto, precisamos tomar a filosofia de Nietzsche como uma filosofia autobiográfica, e é nisso que está a sua honestidade e o seu diferencial. Entretanto: Faria algum sentido tomar a busca de alguém como sua, isto é, viver conforme o pensamento de outro? Não seria isso a própria fraqueza enquanto afirmação, na medida que afirma outro através de si mesmo? Devido a essas questões, creio que a filosofia de Nietzsche deve ser tomada como a escada de Wittgenstein5, isto é, uma escada estendida entre duas montanhas sobre um abismo, uma mais alta que a outra, onde após subir essa escada até a montanha mais alta e jogá-la fora, o sujeito fica sem volta, e de lá, inteiramente só, contempla o mundo em um todo – incluindo ele mesmo -, onde não há instância de apelação, apenas a sua vida – é isso que se chama esclarecimento, e é por isso que é preciso ter coragem.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:
KANT, Immanuel. Resposta à pergunta: o que é o esclarecimento?. Petrópolis: Editora Vozes, 1974.
MARTON, Scarlett. Nietzsche: Das forças cósmicas aos valores humanos. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2000.
NIETZSCHE, Friedrich. Além do Bem e do Mal: Prelúdio de uma filosofia do futuro. Tradução de Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2005.
_______________________ Ecce Homo: De como a gente se torna o que a gente é. Tradução de Marcelo Backes. Porto Alegre: L & PM, 2006.
_______________________ Crepúsculo dos Ídolos (ou como filosofar com o martelo). Tradução de Marco Antonio Casa Nova. Rio de Janeiro: Relume Dumará, 2000.
_______________________ Coleção os Pensadores: Obras Incompletas. Tradução de Rubens Rodrigues Torres Filho. São Paulo: Abril Cultural, 1983.
WITTGENSTEIN, Ludwig. Tractatus Logico-Philosophicus. Tradução de Luiz Henrique Lopes dos Santos. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 2001.
Wikipedia – Enciclopédia Livre. Disponível em http://pt.wikipedia.org/wiki/Thomas_Malthus . Acesso em 13/12/2007.
1Segundo Nietzsche, a Vontade de Poder é a força mais elementar da natureza, que está em todos os organismos que se nutrem, que possuem metabolismo (NIETZSCHE, 2005, p. 40). É por isso que devemos entender, em um primeiro momento, essa vontade como uma força que quer ser mais; para isso ela quer dominar, escravizar tudo que lhe opõe resistência, e é assim que ela se torna cada vez mais forte.
2KANT, 1974, p.100.
3No texto de onde foi extraído esse trecho, ao invés de “poder”, o tradutor utiliza “potência”. Entretanto, preferimos continuar utilizando “poder”, para não gerar confusão.
4 ECCE HOMO, no capítulo “Por
que sou tão inteligente”.
5“Minhas proposições elucidam dessa maneira: quem me entende acaba por reconhecê-las como contra-sensos, após ter escalado através delas – por elas – para além delas. (Deve, por assim dizer, jogar fora a escada após ter subido por ela). Deve sobrepujar essas proposições, e então verá o mundo corretamente” (WITTGENSTEIN, 2001, p.281)
poligonia | 05 Diciembre, 2007 23:31
poligonia | 04 Diciembre, 2007 08:12
O aço dos meus olhos
E o fel das minhas palavras
Acalmaram meu silêncio
Mas deixaram suas marcas...
Se hoje sou deserto
É que eu não sabia
Que as flores com o tempo
Perdem a força
E a ventania
Vem mais forte...
Hoje só acredito
No pulsar das minhas veias
E aquela luz que havia
Em cada ponto de partida
Há muito me deixou
Há muito me deixou...
Ai, Coração alado
Desfolharei meus olhos
Nesse escuro véu
Não acredito mais
No fogo ingênuo, da paixão
São tantas ilusões
Perdidas na lembrança...
Nessa estrada
Só quem pode me seguir
Sou eu!
Sou eu! Sou eu!...
Hoje só acredito
No pulsar das minhas veias
E aquela luz que havia
Em cada ponto de partida
Há muito me deixou
Há muito me deixou...
Ai, Coração alado
Desfolharei meus olhos
Nesse escuro véu
Não acredito mais
No fogo ingênuo, da paixão
São tantas ilusões
Perdidas na lembrança...
Nessa estrada
Só quem pode me seguir
Sou eu!
Sou eu! Sou eu! Sou eu!...
Ai, Coração alado
Desfolharei meus olhos
Nesse escuro véu
Não acredito mais
No fôgo ingênuo, da paixão
São tantas ilusões
Perdidas na lembrança...
Nessa estrada
Só quem pode me seguir
Sou eu!
Sou eu! Sou eu! Sou eu!...
(Fagner)
poligonia | 02 Diciembre, 2007 22:54
Alegrias, as desmedidas.
Dores, as não curtidas.
Casos, os inconcebíveis.
Conselhos, os inexeqüíveis.
Meninas, as veras.
Mulheres, insinceras.
Orgasmos, os múltiplos.
Ódios, os mútuos.
Domicílios, os temporários.
Adeuses, os bem sumários.
Artes, as não rentáveis.
Professores, os enterráveis.
Prazeres, os transparentes.
Projetos, os contingentes.
Inimigos, os delicados.
Amigos, os estouvados.
Cores, o rubro.
Meses, outubro.
Elementos, os fogos.
Divindades, o logos.
Vidas, as espontâneas.
Mortes, as instantâneas.
Bertold Brecht
Poema me oferecido pela minha querida amiga, carinhosamente chamada, Déia.
poligonia | 30 Noviembre, 2007 23:19
poligonia | 27 Noviembre, 2007 21:23
poligonia | 23 Noviembre, 2007 14:01
Estou
disponibilizando a gravação de um curso que participei ministrado pelo
professor Oswaldo Giacóia, sobre Nietzsche, que foi ministrado em Porto Alegre/RS, no mês de julho de 2007.
Clique nos links abaixo:
poligonia | 17 Noviembre, 2007 16:35
"A fé, como eu a entendo, não é fácil de traduzir em palavras. Talvez possa ser assim expressa: Creio que, apesar do seu absurdo patente, a vida ainda assim tem um sentido; eu me resigno a não poder perceber este sentido com a razão, mas estou pronto a serví-lo, mesmo que para tal tenha que me sacrificar. A voz desse sentido, ouço-a em mim mesmo, nos instantes em que estou completa e verdadeiramente vivo e alerta. O que a vida exige de mim nesses instantes, quero tentar realizar, mesmo indo contra os padrões vigentes e as leis comuns. Ninguém pode ter essa crença sob imposição, nem se forçar a ela. Só se pode vivê-la" (Hermann Hesse).
poligonia | 13 Noviembre, 2007 23:15
Fotos tiradas por Marcos Goulart entre os dias 08 e 11 de novembro de 2007, no Teia em Belo Horizonte/MG.
poligonia | 02 Noviembre, 2007 22:58
Iniciar
um texto dizendo que o filme Tropa de Elite suscitou um grande debate
na sociedade brasileira seria uma trivialidade; entretanto, mesmo
sendo trivial, não dá para negar isso. Basta ler
jornais, revistas, assistir programas de televisão, etc. De um
lado críticos paranóicos, de outro críticos
falaciosos. Digo isso, pois li alguns textos, mas dois
particularmente me chamaram a atenção. Um deles foi o
texto de Ivan Pinheiro chamado “Tropa de Elite: A criminalização
da Pobreza”, onde o autor afirma que o filme é uma
conspiração da direita do país, o que beira um
discurso que mais parece de movimento trotskista da década de
70. Outro texto foi o de Reinaldo Azevedo chamado “Capitão
Nascimento bate no Bonde do Foucault”, esse era terrível,
pois comparar Immanuel Kant ao Capitão Nascimento é uma
bestialidade – na real acho que isso foi mais por pedantismo do que
por fundamentação “moral” do seu texto, até
porque Azevedo mostrou que é um péssimo leitor de Kant,
explico porque. Primeiramente, acho que o autor tentou aplicar uma
formulação do Imperativo Categórico, que diz que
“Devemos agir de maneira que a máxima de nossa ação
possa ser universalizada”, isto é, no caso de um usuário
de maconha, o máximo que ele podia fazer, se colocando o
imperativo, seria dizer “será que eu gostaria que todas
pessoas comprassem maconha”, isso seria a universalização,
onde a ação poderia, no máximo, desencadear uma
sociedade de maconheiros. O que Azevedo faz é uma falácia
de indução, a mesma que diz que quem compra uma lata de
coca-cola financia a Guerra no Iraque, isso é uma
generalização, mas é precipitada demais. Naquele
caso, falta uma premissa no argumento: é preciso provar que
quem compra baseado é causador da violência na Favela,
isso é outra coisa bem diferente – mas não é o
que podemos esperar de um artigo de Revista... Podemos dizer que
Nascimento é um policial que age por dever, mas de filosofia
não sabe nada!
Eu particularmente não vi muitas pessoas falando do filme enquanto um filme, não enquanto uma leitura sociológica da realidade. O que tenho para dizer é que eu achei um filme muito ruim, que subestima quem vê, com aqueles discursos muito senso-comum, que trabalha sim com a idéia de super-herói que caça os bandidos – o que podemos esperar de cenas de invasão em favelas ao som de Tihuana, não nos faz lembrar cenas do Robocop atacando os inimigos, ou do Rambo no Oriente médio atrás de terroristas? Pois é, não gosto de filmes de super-heróis, prefiro outras coisas que me façam ir além do simples “ver”... Todavia, poderíamos acreditar que José Padilha se utilizou da mesma ironia que Lars Von Trier se utiliza em “Querida Wendy”, onde a música e a cena faz com que tomemos partido dos meninos que querem apenas tomar um café e causam um tiroteio com a polícia em uma praça... Ou quem sabe, inspirado por Tarantino, se utilizar de cenas de violência ao extremo, uma banalidade da violência... talvez seja isso – só para fazer justiça ou diretor Padilha.
Acho que mesmo assim, não podemos criticar o autor por ele ter feito uma leitura “falsa” da realidade, por uma simples razão, aquilo é um filme, e um filme é apenas uma ficção, por mais que ela tente dizer algo da realidade. Acho que o que está em jogo é que as pessoas não conseguem distinguir ficção da vida real. O filme, enquanto um produto cultural, é um fato histórico no Brasil, pois depois dele não precisamos mais de seriados da SWAT, onde torcemos para os policiais matarem os bandidos. Agora temos heróis brasileiros que são parte da realidade brasileira: a polícia brasileira, com as suas práticas...
Agora, o que devemos pensar são as razões que fazem alguém ir no cinema e aplaudir a violência, pois parece que, nesse caso, estamos diante do “justicismo” que corre em nossas veias, tomando o filme por esse lado, como um retrato da realidade, acho que devemos nos perguntar: por que as pessoas querem que aquilo aconteça? Quais as razões que levam alguém dizer que tem que linchar bandido, estuprar estuprador em presídios, e etc, como Luiz Eduardo Soares menciona em seu artigo chamado “Aplausos à violência?”, onde ele nos coloca a questão acerca do elogio à violência que o filme instigou nas pessoas que o assistem. Talvez seja esse o verdadeiro e mais sensato debate que devemos nos voltar, sem moralismos, falácias, e conflitos ideológicos medíocres.
Para concluir: Acho que há questões profundas que devemos tentar responder: Por que as pessoas, para ter uma vida privada tranquila, aprovam à barbárie? Quem é que coloca drogas na favela – a resposta do Azevedo não vale -? Por que as pessoas não sabem distinguir ficção da realidade? Por que as pessoas procuram drogas? Por que esse debate acirrou os ânimos da direita e da esquerda? Quem fará justiça à José Padilha?... O que acho mais certo é que o filme, suscitando um debate acerca da violência, nos colocou a questão acerca do potencial de barbárie que corre em nossas veias... De onde vem isso? Essa é a questão mais profunda de todas.
Referências:
Aplausos à
Violência? (Luiz Eduardo Soares)
http://www.luizeduardosoares.com.br/lesnovo/umanot.php?id_noticia=99
Capitão
Nascimento bate no Bonde do Foucault (Reinaldo Azevedo)
http://veja.abril.com.br/171007/p_090.shtml
Brasil – Tropa de
Elite: A criminalização da Pobreza (Ivan Pinheiro)
http://www.adital.org.br/site/noticia.asp?lang=PT&cod=30050
poligonia | 01 Noviembre, 2007 23:29
Há dias corridos e há dias em que corremos, a correria é fruto de uma busca de encontrar-se no tempo, dar conta do tempo... mas que tempo é esse? Que vida é essa? Uma vida que talvez nem viva. O tempo de hoje talvez não seja o tempo do nosso corpo, daquilo que vivemos, da nossa experiência de vida, do nosso ser o que somos. Por alguns minutos parei para pensar no que ando fazendo, no que ando dizendo - a vida precisa do silêncio! O que mais me inquietou hoje, foi saber que o "Assim Falou Zaratustra" do Nietzsche, se encontra no primeiro lugar no ranking dos mais vendidos na feira do livro, que ironia. Imagina se todas pessoas resolvessem virarem "nietzschianas", o que seria do mundo... Qual a razão disso? Acho que o subtítulo da obra responde "Um livro para todos e para ninguém", ou seja, todos querem ser, mas ninguém tem coragem suficiente para tal empreendimento: levar uma vida conforme as palavras do profeta... Fico com as palavras de Hermann Hesse: "Ainda não temos a capacidade para entender as palavras de Nietzsche"... E esse na foto é o meu gato Nietzsche... já que vale tudo mesmo...poligonia | 27 Octubre, 2007 23:16

“Trabalho, aflição, esforço, e necessidade constituem durante toda a vida a sorte da maioria das pessoas. Porém se todos os desejos, apenas originados, já estivessem resolvidos, o que preencheria então a vida humana, com que se gastaria o tempo?” (Arthur Schopenhauer).
Porto Alegre, 01 de Janeiro de 1979.
poligonia | 27 Octubre, 2007 18:57
Marcos Goulart
Email: mgoulart@riseup.net
Porto Alegre, RS, Brazil,
Filosofia, Rádio Comunitária, Poesia, Friedrich Nietzsche, Michel de Montaigne, Hermann Hesse, Juventude, Ronco do Bugio...