O fim de uma agonia polivalente

Estamos prontos para fim? É claro que não, o fim não é tão facilmente
experienciável, tendo em vista que o fluxo da vida coloca em cada fim
um começo, ou melhor, um novo começo – seria o fim um recomeço? Estamos
sempre prontos para afundar e cair em um abismo, que talvez não seja
tão fundo assim… O limite está no sentido que damos para tudo aquilo –
até mesmo essas palavras podem ter um sentido para aqueles que o
procuram, no fundo a vida também é um sentido, um horizonte de
navegador, um horizonte instransponível, sem fim, sem Deus, sem ordem…
Não estamos prontos para o fim, pois nunca sabemos viver o
acontecimento de um começo… O início de tudo talvez seja o fim – quem
sabe disso? Nem eu mesmo… Por isso, ensaiu-me, vario-me, grito-me,
vivo-me… acabo, mas não dou cabo de mim.
 
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Gatos

 
 

 
 
 
 
 
 
 
 
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Por um apelo à vida: Esboço de uma filosofia nietzscheana

Nietzsche

 

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Recompensa mal
um mestre

aquele que se
contenta em ser discípulo”.

(Zaratustra)

A filosofia de
Friedrich Nietzsche é a expressão de um pensamento que
se dobra e redobra em si mesmo, nos soando muitas vezes paradoxal;
porém, esse pensamento na medida em que se constrói
dentro e além de suas próprias fronteiras, se afirma
enquanto força e vontade – sendo essa a tarefa do filósofo
enquanto espírito livre. Entretanto, ao adentrar nesse mundo
filosófico é preciso, primeiramente, entender até
mesmo a filosofia como uma interpretação, isto
é, um ponto de vista de um autor; portanto, não há
como negar a intenção de quem escreve, de quem pensa e,
devido a isso, sempre devemos nos perguntar, como o filósofo
mesmo afirma: “(…) a que moral isto (ele) quer chegar?”
(NIETZSCHE, 2005, p.12). Portanto, devemos nos perguntar antes de
mais nada: a que moral Nietzsche quer chegar?

Primeiramente, na
minha interpretação, a filosofia de Nietzsche é
mais um apelo à vida do que um pensamento filosófico
rigoroso – isso não é desqualificar a sua filosofia,
muito pelo contrário -, pois dentro do corpo está a
vida, a vontade, o querer, a moralidade, tudo extravasado pela
vontade de poder1.
Em Nietzsche, o pensamento é o corpo, as experiências
pensadas são sentidas – não havendo precedência
entre uma e outra -, e o que justifica um argumento é aquilo
que se viveu, como ele mesmo diz: “Para aquilo que a gente não
alcança através da vivência, a gente não
tem ouvidos” (Idem, 2006, p.71). Ora, só conseguimos
entender a filosofia do filósofo na medida em que vivemos
ela. Todavia, viver a filosofia de alguém já é
um sinal de “fraqueza”, pois se faz necessário criar a sua
própria vida através do seu próprio pensamento –
a sua própria afirmação enquanto espírito
livre. Não só isso, o próprio filósofo já
pensa em uma filosofia da singularidade, dos conceitos criados a
partir da potência de artista dos “filósofos do
futuro”, como ele mesmo diz: “’Meu juízo é meu
juízo: dificilmente um outro tem direito a ele’ – poderia
dizer um tal filósofo do futuro” (Idem, 2005, p.44). Assim,
podemos pensar que a filosofia de Nietzsche é a realização
daquilo que Kant afirma ser o esclarecimento: ter coragem para fazer
uso do seu próprio entendimento sem auxílio de outrem2;
pois se em uma “filosofia do futuro” os filósofos abrem
mão de formar “escolas”, eles também abrem mão
de servir-se de teorias que não são suas para dar
sentido às suas vidas. Na filosofia de Nietzsche, portanto, se
tomarmos ele como um dos realizadores do esclarecimento, o filósofo
se torna só, ele prefere ser só, pois é isso que
o torna livre.

A liberdade desse
filósofo do futuro, que toma as rédeas de sua própria
vida, entretanto, é paga a duras penas, tendo em vista que ela
se afirma no conflito de forças que é a vida. Para o
Nietzsche, ao meu ver, a vida é um absurdo, ela não tem
um sentido, o sentido é dado pelo sujeito vivente. Se tornar
um sujeito livre, portanto, é admitir que a vida não é
uma calmaria, mas uma luta de desejos atravessados pelas diversas
construções de sentidos e moralidades construídas
a cada instante por cada pessoa. Um filósofo do futuro, o
espírito livre, seria como um aventureiro, como um guerreiro
que se coloca a desbravar uma floresta perigosa, onde a calma e a
tranqüilidade não existe, como diz o filósofo:

O homem que se
tornou livre,
e muito mais ainda o espírito que se
tornou livre pisa sobre o modo de ser desprezível do
bem-estar, com o qual sonham o comerciante, o cristão, a vaca,
a mulher, o inglês e outros democratas. O homem livre é
um guerreiro (NIETZSCHE, 2000, p.95).

A partir disso,
podemos pensar que o espírito livre admite a vida sem uma
ordem organizada por um ente superior, em oposição ao
cristão; ou sem uma sociedade bem ordenada, onde todos
viveriam tranquilamente, em oposição ao democrata.
Devido a isso, podemos concluir que a liberdade não é
simplesmente um fim, algo que se efetiva para que todos os seres
humanos possam viver em paz e em comunhão, como era o sonho do
Idealismo Alemão. Ao contrário, a liberdade é um
fardo, mas que é tomado corajosamente por aqueles que admitem
a vida enquanto tal –

Imaginem um ser tal
como a natureza, desmedidamente pródigo, indiferente além
dos limites, sem intenção ou consideração,
sem misericórdia ou justiça, fecundo, estéril e
incerto ao mesmo tempo (…) (Idem, 2005, p.14).

Por isso, não
podemos negar que a filosofia de Nietzsche é um apelo à
vida e, portanto, um apelo à sensibilidade, tão negada
com o “descobrimento” da subjetividade na modernidade.
Entretanto, esse apelo à vida, por incrível que pareça,
é um apelo ao caos.

Talvez ainda não
tenha ficado claro a definição de vida para o filósofo
alemão. Ao meu ver, a noção de vida está
ligada muito mais a uma concepção biológica do
que uma concepção metafísica, por isso, o termo
se confunde com natureza, tendo em vista que, como vimos acima, a
Vontade de Poder é a constituição elementar da
vida daqueles seres que se nutrem, que possui metabolismo, isto é,
seres naturais – “onde encontrei vida, encontrei vontade de poder3
(Idem, 1983, p.238) Entretanto, nos parece que o filósofo, na
medida que se propõe a sepultar a metafísica, vai
precisar se amparar na ciência de sua época. Tentaremos,
portanto, esboçar um breve diálogo do autor com a
ciência, em particular com Darwin, para pensarmos a noção
de vida.

Na teoria
darwiniana da evolução das espécies, temos a
idéia de uma luta por auto-conservação, devido
ao fato de os bens a natureza serem escassos. Darwin se utilizou da
teoria de Thomas Malthus para fundamentar a sua idéia de
evolução das espécies,

Estendendo a
teoria de Malthus ao reino animal, Darwin sustentou que os meios de
subsistência aumentavam em proporção menor que os
animais, o que levava a desencadear-se entre estes o combate.
Entendeu assim a luta pela existência como luta pela
subsistência, vinculando-a à necessidade de
auto-conservação” (MARTON, 2000, p.55).

Ora, para
Nietzsche não é a carência que fundamenta a força
e a luta, mas o excesso, o transbordamento, como ele mesmo escreve
acerca da teoria de Darwin:

No que concerne à
celebre luta pela vida, ela me parece a princípio mais
afirmada do que provada. Ela acontece, mas enquanto exceção;
o aspecto conjunto da vida não é a indigência
e a penúria famélicas, mas muito mais a riqueza, a
exuberância, mesmo o desperdício absurdo – onde há
luta, luta-se por potência… (NIETZSCHE, 2000, p.75).

 

 

Com
isso, podemos perceber de certa forma uma noção de vida
em Nietzsche, que não é fundamentada através de
uma luta por subsistência, onde os homens, devido a escassez de
bens naturais, matam-se entre si para manterem-se vivos. Portanto,
não é esse “manterem-se vivos” o motor da vida, da
natureza, muito menos um “adaptar-se melhor”, como vemos em
Darwin, mas o extravasamento da potência que quer ainda mais
potência, uma busca incessante de superar o seu “ser atual”
por um devir constante. Nesse caso, se fôssemos pensar a
situação de pessoas em miséria por exemplo, elas
não passam fome devido à falta de alimentos na
natureza, mas devido ao “absurdo desperdício” de outras
pessoas, pois o desejo de querer mais de outras pessoas, em
grande parte, implica na impossibilidade de outros poderem ser
mais,
e é nesse conflito que a vida se dá;
portanto, não é a carência de bens naturais que
fundamenta as desigualdades, mas o querer mais das pessoas, pois
“(…) até mesmo na vontade daquele que serve encontrei
vontade de ser senhor” (Idem, 1983, p.238); ou seja, no fundo
qualquer pessoa gostaria de ser mais do que é, por
extravasamento da força, inclusive, ser o seu oposto, pelo
simples fato, de estar posto que todo ser vivente quer ser mais do
que é – esse é o motor da vida.

Pensar
a filosofia de Nietzsche como um apelo à vida, não é
simplesmente dizer que devemos viver melhor o que já vivemos,
pois viver significa viver, nada além disso. O que o filósofo
nos faz pensar é que não há uma justificação
racional para a vida, pois a vida não é um
argumento,
como há tempos os diversos filósofos nos
propuseram; não que não seja possível argumentar
acerca da vida, no entanto, quem fala da vida fala de um determinado
ponto de vista, de uma determinada perspectiva – inclusive o
próprio Nietzsche. Por isso, o autor desse texto, o meu “eu”,
fica em uma encruzilhada com mais de quatro caminhos, pois não
há como não colocar a minha interpretação,
acerca de uma interpretação, de outras várias
interpretações – são as diversas vontades que
se fazem pensamento no meu corpo…

O apelo à
vida de Nietzsche é muito mais admitir para si a sua
interpretação, as suas perspectivas, tornando cada vez
mais forte aquele que pensa acerca da sua própria vida – e
isso é posto na vida. Quem pensa acerca a natureza, acerca da
luta, da morte, do caos, atribui sentido e se afirma enquanto sujeito
vivente. Sabedoria, portanto, é tornar-se o que é (o
que se quer, pois esse “é” é devir), no caso de
Nietzsche, seria se alimentar bem e saber estar nos locais que fazem
bem para a sua saúde, ou seja, a busca por um conhecimento do
próprio corpo, por isso ele se considerava inteligente4.

O filósofo
do futuro, que nada mais é do que um filósofo do corpo,
do frio na espinha, do toque, do sentimento, das mais diversas
afecções, do conflito com o outro – pois é
isso que o torna mais forte -, do amor, da dor, do sofrimento, do
engano de si, do falso – caso se opere ainda com a idéia
clássica de oposições de valores – é um
filósofo da vida, não coloca para si a pretensão
de elaborar proposições acerca da realidade como se
colocasse para além do mundo, mas proposições
para si, constitui juízos que afirmam a sua vida e potência
– no fundo uma proposição filosófica desse
filósofo do futuro é o seu extravasamento.

Podemos até
mesmo perceber que os vôos de Nietzsche no espaço
científico não foram tão exitosos assim, pois,
por exemplo, a contraposição da teoria darwiniana à
sua vontade de poder, deveria ter se amparado mais firmemente em
fundamentos científicos, isto é, a pretensão
científica de Nietzsche deveria ter como fundamentação
um experimento. A própria tese de uma Vontade de Poder, por
mais que ele diga que constitui a vida, a natureza, ainda fica no
âmbito da argumentação, da busca de um primeiro
princípio, como vários filósofos fizeram –
inclusive os que ele chamou de preconceituosos. Contudo, não é
isso o que mais vale, devemos entender sua filosofia como uma
tentativa de formar-se na vida, como ele mesmo afirma:

Quem conhece a
seriedade com a qual minha filosofia principiou a batalha contra o
sentimento da vingança e da revanche, até chegar à
doutrina do “livre-arbítrio” – a batalha contra o
cristianismo é apenas um caso isolado dentro dela -, haverá
de entender por que trago à luz minha conduta pessoal, minha
certeza instintiva na práxis
(Idem, 2006, p.37).

 

Portanto,
precisamos tomar a filosofia de Nietzsche como uma filosofia
autobiográfica, e é nisso que está a sua
honestidade e o seu diferencial. Entretanto: Faria algum sentido
tomar a busca de alguém como sua, isto é, viver
conforme o pensamento de outro? Não seria isso a própria
fraqueza enquanto afirmação, na medida que afirma
outro através de si mesmo? Devido a essas questões,
creio que a filosofia de Nietzsche deve ser tomada como a escada de
Wittgenstein5,
isto é, uma escada estendida entre duas montanhas sobre um
abismo, uma mais alta que a outra, onde após subir essa escada
até a montanha mais alta e jogá-la fora, o sujeito fica
sem volta, e de lá, inteiramente só, contempla o mundo
em um todo – incluindo ele mesmo -, onde não há
instância de apelação, apenas a sua vida – é
isso que se chama esclarecimento, e é por isso que é
preciso ter coragem.

REFERÊNCIAS
BIBLIOGRÁFICAS:

KANT, Immanuel.
Resposta à pergunta: o que é o esclarecimento?.
Petrópolis: Editora Vozes, 1974.

MARTON, Scarlett.
Nietzsche: Das forças cósmicas aos valores humanos.
Belo Horizonte: Editora UFMG, 2000.

NIETZSCHE,
Friedrich. Além do Bem e do Mal: Prelúdio de uma
filosofia do futuro.
Tradução de Paulo César
de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2005.

_______________________
Ecce Homo: De como a gente se torna o que a gente é.
Tradução de Marcelo Backes. Porto Alegre: L & PM,
2006.

_______________________
Crepúsculo dos Ídolos (ou como filosofar com o
martelo).
Tradução de Marco Antonio Casa Nova. Rio
de Janeiro: Relume Dumará, 2000.

_______________________
Coleção os Pensadores: Obras Incompletas.
Tradução de Rubens Rodrigues Torres Filho. São
Paulo: Abril Cultural, 1983.

WITTGENSTEIN,
Ludwig. Tractatus Logico-Philosophicus. Tradução
de Luiz Henrique Lopes dos Santos. São Paulo: Editora da
Universidade de São Paulo, 2001.

Wikipedia –
Enciclopédia Livre. Disponível em
http://pt.wikipedia.org/wiki/Thomas_Malthus
. Acesso em 13/12/2007.

1Segundo
Nietzsche, a Vontade de Poder é a força mais elementar
da natureza, que está em todos os organismos que se nutrem,
que possuem metabolismo (NIETZSCHE, 2005, p. 40). É por isso
que devemos entender, em um primeiro momento, essa vontade como uma
força que quer ser mais; para isso ela quer dominar,
escravizar tudo que lhe opõe resistência, e é
assim que ela se torna cada vez mais forte.

2KANT,
1974, p.100.

3No
texto de onde foi extraído esse trecho, ao invés de
“poder”, o tradutor utiliza “potência”. Entretanto,
preferimos continuar utilizando “poder”, para não gerar
confusão.

4  ECCE HOMO, no capítulo “Por
que sou tão inteligente”.

5“Minhas
proposições elucidam dessa maneira: quem me entende
acaba por reconhecê-las como contra-sensos, após ter
escalado através delas – por elas – para além
delas. (Deve, por assim dizer, jogar fora a escada após ter
subido por ela). Deve sobrepujar essas proposições, e
então verá o mundo corretamente” (WITTGENSTEIN,
2001, p.281)

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Teatro Mágico

extraído de um blog que eu não lembro o nome
 
Harry Haller olha-se em um espelho quebrado onde contempla as suas diversas faces que nem ele mesmo conhece; mas que estão ali e fazem parte do seu ser. Depois de Descartes somos no mínimo dois, e depois de Nietzsche milhares. Definir uma pessoa é sempre uma tarefa difícil e sempre carregada de equívocos, pois em um mundo fragmentário nós mesmos somos fragmentos – um pedaço de si a cada momento, jamais tudo ao mesmo tempo, jamais uma unidade coesa. Talvez sejamos uma jaula onde diversos seres estão em constante conflito… A cada momento da vida libertamos um lobo que há em nós, e a nossa pobre razão sempre quer "paz", jamais silêncio a sós consigo mesma, pois o grito que vem de dentro ecoa, e acorda as diversas almas que brigam entre si em nosso ser.
 
Escrito em 08 de Novembro de 2005. 
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Noturno

O aço dos meus olhos
E o fel das minhas palavras
Acalmaram meu silêncio
Mas deixaram suas marcas…

Se hoje sou deserto
É que eu não sabia
Que as flores com o tempo
Perdem a força
E a ventania
Vem mais forte…

Hoje só acredito
No pulsar das minhas veias
E aquela luz que havia
Em cada ponto de partida
Há muito me deixou
Há muito me deixou…

Ai, Coração alado
Desfolharei meus olhos
Nesse escuro véu
Não acredito mais
No fogo ingênuo, da paixão
São tantas ilusões
Perdidas na lembrança…

Nessa estrada
Só quem pode me seguir
Sou eu!
Sou eu! Sou eu!…

Hoje só acredito
No pulsar das minhas veias
E aquela luz que havia
Em cada ponto de partida
Há muito me deixou
Há muito me deixou…

Ai, Coração alado
Desfolharei meus olhos
Nesse escuro véu
Não acredito mais
No fogo ingênuo, da paixão
São tantas ilusões
Perdidas na lembrança…

Nessa estrada
Só quem pode me seguir
Sou eu!
Sou eu! Sou eu! Sou eu!…

Ai, Coração alado
Desfolharei meus olhos
Nesse escuro véu
Não acredito mais
No fôgo ingênuo, da paixão
São tantas ilusões
Perdidas na lembrança…

Nessa estrada
Só quem pode me seguir
Sou eu!
Sou eu! Sou eu! Sou eu!…

(Fagner) 

 

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Poema de Bertold Brecht

Alegrias, as desmedidas.
Dores, as não curtidas.
Casos, os inconcebíveis.
Conselhos, os inexeqüíveis.
Meninas, as veras.
Mulheres, insinceras.
Orgasmos, os múltiplos.
Ódios, os mútuos.
Domicílios, os temporários.
Adeuses, os bem sumários.
Artes, as não rentáveis.
Professores, os enterráveis.
Prazeres, os transparentes.
Projetos, os contingentes.
Inimigos, os delicados.
Amigos, os estouvados.
Cores, o rubro.
Meses, outubro.
Elementos, os fogos.
Divindades, o logos.
Vidas, as espontâneas.
Mortes, as instantâneas.

Bertold Brecht

Poema me oferecido pela minha querida amiga, carinhosamente chamada, Déia. 

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Transporte Coletivo

Lotado
 
Ônibus lotado, Restinga Nova centro/bairro 22:45h… Seguindo as minhas leituras acerca de uma suposta noção de natureza humana em  Montaigne – o meu mais atual pedantismo… Resolvo prestar atenção, após uma parada para respirar, naquilo que as pessoas diziam… Uma menina se olha através do vidro de uma janela do ônibus, uma senhora percebe isso, a menina olha para essa senhora e pergunta: "O meu cabelo está feio?", a senhora meio sem jeito diz não balançando a cabeça. A menina continua o diálogo, e diz: "É que eu vou ver uma pessoa que eu gosto…", a senhora e eu damos um sorriso para ela – achei bonito o desabafo. Após isso, a menina diz: "Mas a minha barriga me deixa triste"… O encanto se acaba, e a próxima parada é a minha.
 
Canção: Ludwig Van Beethoven – 9ª Sinfonia – Presto alegro assai.
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Melancolia

Nenhuma palavra pode atingir
0 sentimento encarcerado no meu ser:
nostalgia de uma palavra vazia,
uma canção que já inicia
com um adeus ou um amém.

Sou eu comigo mesmo,
um silêncio profundo
e uma palavra nenhuma.

Os passos diante do indizível
que é sentido no meu peito,
trilham poesias tão adeus de mim,
como fuga de algo não eu,
um fato que nunca acontece:
fogem as rimas, escrevo o silêncio.

Tão barata quanto minha filosofia,
tentativa que se acaba no tentar,
indizível como sempre…
minha vida aprisionada,
em um passado que não há.

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Curso do Professor Giacóia sobre Nietzsche

NietzscheEstou
disponibilizando a gravação de um curso que participei ministrado pelo
professor Oswaldo Giacóia, sobre Nietzsche, que foi ministrado em Porto Alegre/RS, no mês de julho de 2007.

Clique nos links abaixo:

Primeiro dia | Segundo dia | Terceiro dia | Quarto dia

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Deus se fez carne, tornou-se vontade…

vela"A fé, como eu a entendo, não é fácil de traduzir em palavras. Talvez possa ser assim expressa: Creio que, apesar do seu absurdo patente, a vida ainda assim tem um sentido; eu me resigno a não poder perceber este sentido com a razão, mas estou pronto a serví-lo, mesmo que para tal tenha que me sacrificar. A voz desse sentido, ouço-a em mim mesmo, nos instantes em que estou completa e verdadeiramente vivo e alerta. O que a vida exige de mim nesses instantes, quero tentar realizar, mesmo indo contra os padrões vigentes e as leis comuns. Ninguém pode ter essa crença sob imposição, nem se forçar a ela. Só se pode vivê-la" (Hermann Hesse).
 
Hoje saí apressado de
casa, pois tinha a idéia de ter perdido algo no dia de ontem
em algum lugar que eu mal lembrava… Acabei encontrando uma velha
senhora, uma vizinha minha. Ela me parou e disse que eu estava feio,
com uma cara de assustado, disse também que há tempos
me notava assim, disse que essa angústia que ela via expressa
no meu semblante deveria me fazer um mal e que eu precisava pelo
menos acreditar am algo… Eu perguntei para ela: "Em que
acreditas?" Ela me disse que acreditava em Deus, em Cristo, que
só assim a vida tem um sentido para ela… Eu apenas lhe
disse: "Minha senhora, se você me trazer Deus até
aqui eu passo acreditar nele,  mesmo assim,  que diferença
faria para a minha vida, se ele não pode viver por mim?…"
Viramos as costas um para o outro – acho que acabei com o diálogo
naquele instante. Continuei procurando os lugares por onde havia
passado na noite de ontem, o meu olhar estava mais apurado, pude
perceber o sol e os pássaros que cantavam e faziam trilha
sonora para essa busca… Mesmo assim, as palavras daquela fiel
senhora me vieram à cabeça: "será que eu
não acredito em nada?…" É claro que acredito, se
não tivesse acreditado que havia perdido algo, não
sairia buscando… Acredito, por exemplo, que viver e acreditar são
uma e a mesma coisa, acreditamos estarmos bem ou mal quando
acordamos, acreditamos estar amando alguém quando somos
tomados por um desejo de alguém além da gente,
acreditamos que podemos viver melhores se fizermos aquilo que
queremos e gostamos, acreditamos que precisamos buscar algo maior do
que a gente quando nos sentimos pequenos, acreditamos sermos fracos
quando o mundo exige de nós muita força, acreditamos
estar vivo quando vivemos, enfim, como disse, viver é
acreditar… Se Deus legitimar o meu amor à vida,  então,
desde já acredito nele. Mas que diferença faria
para Deus saber que eu, mísero mortal, acredito nele, ele
apenas estará eternamente em seu trono onde vê tudo,
estagnado, parado, imutável. Será que Deus sente o
cheiro do café quando esta sendo passado? Será que Deus
sente aquele friozinho na barriga quando se aproxima de sua amada?
Será que Deus ama alguém? Pois amar a humanidade é
um amor frio, incondicional e, portanto, nada singular – o belo do
amor é a singularidade do amar alguém, cada amor é
diferente… Que diferença faria se a partir de hoje eu
admitisse para mim uma crença em Deus? Para acreditar em algo
eu preciso de regras para a vida? Deus é remédio para
as nossas angústias? Não, esse Deus ou religião
não me serve, quero distância dessa religião que
castra a vida, que diz que a nossa vida é um meio para a vida
verdadeira, mas que apenas cria fiéis cada vez mais neuróticos
que não sabem lhe dar com as possibilidades de felicidade, que
quando são tomados de alegria dizem não merecer isso,
preferem amar a Deus e a humanidade, mas não conseguem amar e
nem se dispor para com as pessoas que lhe estão próximas
– em que esses fiéis acreditam? Em um pessimismo? Talvez
seja  um problema patológico… Para mim, Deus se fez
carne, tornou-se vontade, tornou-se vida, tornou-se canto, tornou-se
amor, tornou-se pássaros, tornou-se livros, tornou-se cheiro
da amada, tornou-se sentimentos, ação constante,
reflexão sobre si, busca de alegria e de si mesmo, disposição
para com os amigos, pura amizade… Estou completamente convencido
que a minha religião é a própria vida, acredito
que é preciso acreditar para viver… Por isso,  
continuo buscando aquilo que acredito ter perdido.
 
Porto Alegre, 04 de Janeiro de 1979. 
 
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