Deus se fez carne, tornou-se vontade…

vela"A fé, como eu a entendo, não é fácil de traduzir em palavras. Talvez possa ser assim expressa: Creio que, apesar do seu absurdo patente, a vida ainda assim tem um sentido; eu me resigno a não poder perceber este sentido com a razão, mas estou pronto a serví-lo, mesmo que para tal tenha que me sacrificar. A voz desse sentido, ouço-a em mim mesmo, nos instantes em que estou completa e verdadeiramente vivo e alerta. O que a vida exige de mim nesses instantes, quero tentar realizar, mesmo indo contra os padrões vigentes e as leis comuns. Ninguém pode ter essa crença sob imposição, nem se forçar a ela. Só se pode vivê-la" (Hermann Hesse).
 
Hoje saí apressado de
casa, pois tinha a idéia de ter perdido algo no dia de ontem
em algum lugar que eu mal lembrava… Acabei encontrando uma velha
senhora, uma vizinha minha. Ela me parou e disse que eu estava feio,
com uma cara de assustado, disse também que há tempos
me notava assim, disse que essa angústia que ela via expressa
no meu semblante deveria me fazer um mal e que eu precisava pelo
menos acreditar am algo… Eu perguntei para ela: "Em que
acreditas?" Ela me disse que acreditava em Deus, em Cristo, que
só assim a vida tem um sentido para ela… Eu apenas lhe
disse: "Minha senhora, se você me trazer Deus até
aqui eu passo acreditar nele,  mesmo assim,  que diferença
faria para a minha vida, se ele não pode viver por mim?…"
Viramos as costas um para o outro – acho que acabei com o diálogo
naquele instante. Continuei procurando os lugares por onde havia
passado na noite de ontem, o meu olhar estava mais apurado, pude
perceber o sol e os pássaros que cantavam e faziam trilha
sonora para essa busca… Mesmo assim, as palavras daquela fiel
senhora me vieram à cabeça: "será que eu
não acredito em nada?…" É claro que acredito, se
não tivesse acreditado que havia perdido algo, não
sairia buscando… Acredito, por exemplo, que viver e acreditar são
uma e a mesma coisa, acreditamos estarmos bem ou mal quando
acordamos, acreditamos estar amando alguém quando somos
tomados por um desejo de alguém além da gente,
acreditamos que podemos viver melhores se fizermos aquilo que
queremos e gostamos, acreditamos que precisamos buscar algo maior do
que a gente quando nos sentimos pequenos, acreditamos sermos fracos
quando o mundo exige de nós muita força, acreditamos
estar vivo quando vivemos, enfim, como disse, viver é
acreditar… Se Deus legitimar o meu amor à vida,  então,
desde já acredito nele. Mas que diferença faria
para Deus saber que eu, mísero mortal, acredito nele, ele
apenas estará eternamente em seu trono onde vê tudo,
estagnado, parado, imutável. Será que Deus sente o
cheiro do café quando esta sendo passado? Será que Deus
sente aquele friozinho na barriga quando se aproxima de sua amada?
Será que Deus ama alguém? Pois amar a humanidade é
um amor frio, incondicional e, portanto, nada singular – o belo do
amor é a singularidade do amar alguém, cada amor é
diferente… Que diferença faria se a partir de hoje eu
admitisse para mim uma crença em Deus? Para acreditar em algo
eu preciso de regras para a vida? Deus é remédio para
as nossas angústias? Não, esse Deus ou religião
não me serve, quero distância dessa religião que
castra a vida, que diz que a nossa vida é um meio para a vida
verdadeira, mas que apenas cria fiéis cada vez mais neuróticos
que não sabem lhe dar com as possibilidades de felicidade, que
quando são tomados de alegria dizem não merecer isso,
preferem amar a Deus e a humanidade, mas não conseguem amar e
nem se dispor para com as pessoas que lhe estão próximas
– em que esses fiéis acreditam? Em um pessimismo? Talvez
seja  um problema patológico… Para mim, Deus se fez
carne, tornou-se vontade, tornou-se vida, tornou-se canto, tornou-se
amor, tornou-se pássaros, tornou-se livros, tornou-se cheiro
da amada, tornou-se sentimentos, ação constante,
reflexão sobre si, busca de alegria e de si mesmo, disposição
para com os amigos, pura amizade… Estou completamente convencido
que a minha religião é a própria vida, acredito
que é preciso acreditar para viver… Por isso,  
continuo buscando aquilo que acredito ter perdido.
 
Porto Alegre, 04 de Janeiro de 1979. 
 
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